Porque ao fim do dia,o que me aquece o coração são ELAS!
São elas que me fazem sorrir quando só me apetece chorar;são elas que me fazem acreditar que ainda existe pureza,simplicidade e bondade.São elas que me fazem acreditar num amor desinteressado.
São elas que me fazem acreditar na verdade. São elas que me transportam para uma bolha onde o meu mundo desabado "lá de fora" não existe...são elas que me deixam entrar no seu mundo,onde tudo é pintado de azul do céu e onde só há lugar para sorrisos abertos - não daqueles falsos,que fingimos para dar a parecer ao mundo que está tudo bem connosco, mas daqueles sinceros,genuínos e límpidos.
É tão fácil alimentarmo-nos de falsos afectos, que só nos alimentam até um certo ponto - até ao momento em que a realidade nos dá uma estalada na cara e nos apercebemos no vazio que vagueia à nossa volta : tanto fingimento,tantos sorrisos forçados,tantas alegrias e sonhos reprimidos.
Aos olhos de uma criança, tudo é possível!
Aos olhos de uma criança são as pequenas vitórias de cada dia que interessam e não as coisas más da vida (aquelas que nós, adultos, insistimos em reviver, vezes sem conta e que os pequenos esquecem ao ritmo de uma gargalhada).
Elas não se inibem de dizer "Gosto muito de ti" ... não,não reprimem sentimentos, como nós!
Fazem a palavra Professora soar como se fosse uma daquelas minhas músicas preferidas...
Enchem-me o coração e ensinam-me muito mais do que eu lhes ensino a elas.
Dão-me muito mais do que recebem e não são raras as vezes em que elas pintam os meus dias cinzentos de todas as cores.
Ensinam-me a ser livre.
Ensinam-me a ser como um pássaro - há muito tempo que não me sentia assim.
Ensinam-me, todos os dias, o que é o amor ...
" elas crescem em segredo, as crianças. Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.
Chega um dia em que estás descuidado a olhar o rebanho que regressa com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés, diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno.
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a atirar sobre as gralhas, inumeráveis, àquela hora. "
Eugénio de Andrade
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